sexta-feira, 9 de novembro de 2012

As graciosidades dela


Gracinha era prima de Astolfo, que, de passagem por Salto para rever a família, resolveu levá-la para conhecer São Paulo.

Foi ele que, em 1973 apresentou Roberto, então com 26 anos, a Gracinha, que tinha 20. 
Roberto era meio torto, mas charmoso, loiro, olhos castanhos, boca fina, pele branca, magro, alto e, sem dúvidas, muito elegante. Ela era alta também, ferindo o padrão (de todas as épocas), em que as baixinhas têm toda a preferência, morena, cara de brava, sobrancelhas grossas, e suas roupas escondiam o belo corpo que tinha.
Certo dia, foi com seu primo à casa de Roberto, conversaram toda a tarde. A boquinha, pequena e carnuda, sorriu quando descobriu uma televisão a cores na sala da casa do rapaz. 
Gracinha estendeu sua permanência em São Paulo. Roberto a levou para jantar, assistir no cinema Toda Nudez Será Castigada, bailes e a eventos frequentados pela elite paulistana de 70. Enfim, sua volta para Salto se deu apenas para avisar aos pais sobre o casamento e pedir benção.
Gracinha era perfeita, Roberto assim achava.

- Vem aqui, vamos fazer amor gostoso, meu bem.

- Graça! Não fale assim, não sabe que isso é comportamento de puta?!

Mas foi. Foi porque gostava, mas acreditava que, se um dia a mulher o deixasse, não agiria de mesma forma com qualquer outro homem, lembraria do que dizia e sentiria vergonha, o que os fariam perder logo o interesse e ela voltaria pra ele. 
Assim conduziu seu casamento, fiel e amando Gracinha, que nunca descuidou da casa, que sempre foi perfeita. Nunca o deixou, tampouco deixou os hábitos, que ele tanto gostava. 
"Tenho uma jóia, pensava, essa mulher é fina, inteligente, na frente dos outros não me faz vergonha. Entre quatro paredes, ela esquece de toda educação na rua, é uma máquina, jeitosa, gostosa, me enche dos mais variados beijos, me diz ao pé do ouvido promessas que faz questão de cumprir. Como sou sortudo"
 Não viveram felizes para sempre porque o ser humano tem começo, meio e fim. Gracinha, então mais conhecida como Dona Graça, enfartou cantando o parabéns de seus 59 anos e morreu a caminho do hospital.
 Roberto tentou morrer, se matar não, era contra seus princípios. Atravessava a rua lentamente, dirigia acima da velocidade permitida, passou a frequentar, ainda que de carro, as noites da Zona Leste da cidade de São Paulo, logo desistiu, percebeu que o azar não gostava muito dele e que a morte não ia obedecer ao capricho de um semi velho, que parecia ter 45 anos, não 65. 
 Decidiu se mudar, para uma casa menor, e jogar as coisas de Graça fora. Olhou item por item antes de colocá-los nas caixas, viu cartas que trocou com Gracinha, viu flores secas, guardadas há 20 ou 30 anos. Como se tivesse feito uma perícia na vida de sua mulher, suspirou, aliviado por não ter descoberto nada que ferisse a imagem e memória que tinha dela. Quando suas coisas chegaram ao novo apartamento o dono da empresa de mudanças, que ajudava a levar as coisas pra cima, entregou um pacote a ele:

- Seu Roberto, o fundo falso do seu armário quebrou, caiu esse pacote de lá.

Pega o pacote, e com tom de dúvida pergunta:

- O fundo falso?

- É, mas fica tranquilo que nós vamos descontar o conserto do valor da mudança, nos desculpe.

A noite, em sua nova casa, Roberto abriu o pacote, com um copo de whisky, e descobriu várias cartas de três remetentes diferentes: Marco Aurélio, Pedro Portas e Rubens Machado.

Separou os remetentes por ordem alfabética e assim também leu.
Descobriu, que tudo o que censurava em Gracinha ela dizia em grau, genêro e número mais intensamente para todos os três. Teve a "sorte" de Gracinha possuir tanto as cartas que recebia quanto as que enviava. Assim, a sólida imagem de Gracinha transformou-se em um frágil cristal, que ele fez questão de jogar no chão e pisar até virar pó.

O trecho mais suave e menos selvagem que encontrou foi:

"Sou toda sua, me use como quiser. Minhas coxas clamam por você entre elas, como recompensa prometo ser boazinha, fazer o que você quiser..."

Deixou seus princípios de lado e atirou-se do décimo nono andar, não conseguiu chegar sequer ao fim do Marco Aurélio e não chegou a ler a última carta que Graça mandou para Marco, que era a mesma última que mandou para Pedro e para Rubens:

Querido,

É aqui que cesso nosso contato. Sou muito grata por todo carinho e atenção que sempre me dedicou. Espero que tenha se divertido. É uma pena eu amar meu marido como amo, se não, poderíamos ter nos conhecido. Até mesmo consumado qualquer coisa, mas acho que o papel é o limite. Se disser que sentirei falta dessa brincadeira, minto. Tenho o que preciso em casa, sei que por sua mulher também mantém sentimento semelhante.

Adeus,

Gracinha.

2 comentários:

  1. hahahaha
    achei bem legal, lindona.
    gostei da referência ao "toda nudez será castigada", afinal o próprio conto é meio rodrigueano. eu não tinha ouvido a história toda antes, pensando nela agora eu curti o final. acho que dá pra carregar mais nos detalhes das personagens (não sei se você tem essa brisa, mas...), os jeitos, trejeitos, neuroses - eu, particularmente, me envolvo mais com esse tipo de descrição do que com "morena, cara de brava, sobrancelhas grossas (...)".

    Beijo.

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  2. ótima narrativa e concordo com o comentário acima. Descrever a alma dospersonagens é mais interessante queo físico (a não ser que se trate de uma narrativa erótica).

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